MEMÓRIAS DE GOOWOLF O DEUS DO CONHECIMENTO

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MEMÓRIAS DE GOOWOLF O DEUS DO CONHECIMENTO

Mensagem por PGiuriato em Qua Maio 10, 2017 7:49 pm

MEMÓRIAS DE GOOWOLF O DEUS DO CONHECIMENTO

O FIM E O RECOMEÇO




Meu relato possui o mesmo título do livro que gerou meu pecado, espero assim poder me redimir de minha possível influência em um vale virgem.

Que a verdade seja exposta sem o filtro da maldade, da omissão ou da ingenuidade.

Inspetor nº 99, inspeção de vale virgem nº 13

Fui designado para minha 13º inspeção de um vale virgem, a essa altura já havia visitado o Bosque dos Ventos Sussurrantes, a Cidadela de Jasmim, o Jardim Suspenso, o Buraco da Calamidade, o Epitáfio dos Justos Mal Amados, o Teatro Central, a Forja Onírica, as Plantações de Vegetais Fálicos, a Vila de Aroeira, as Cataratas de Algodão, o Júbilo do Soldado e as Carrancas do Gigante.

É incrível a velocidade com que esses vales virgens brotam ao redor deste e de outros planos. Mas é uma pena que geralmente os povos desses lugares aproveitem pouco das dádivas que o tempo de exílio e os primeiros eventos cósmicos têm a oferecer.



Dia 1 da 13º inspeção

Utilizo um portal temporal e chego ao meu destino. Como de praxe, em um primeiro momento utilizo um feitiço de clarividência localizado e imperceptível para identificar a geografia e as formas de vida do lugar, eis o que encontro:

• Externamente um grande cinturão verde de floresta densa e tropical. Índice de Desvio:
o Flora: ID 0;
o Fauna: ID 0;
o Agressividade: ID 0 Neutro;
o Potencial Místico Inativo: ID 12;
o Influência Mística Ativa: ID 0;
 Relativamente incomum por ser comum demais.

• No interior do cinturão uma cadeia de montanhas pedregosas e espinhentas cobertas por mais vegetação e possuindo 5 vulcões, 3 ativos com baixa atividade sísmica e 2 inativos. Índice de Desvio:
o Flora: ID 3;
o Fauna: ID 7;
o Agressividade: ID 9 Agressivo;
o Potencial Místico Inativo: ID 12;
o Influência Mística Ativa: ID 0-3 Flutuante;
 Apenas uma forma de vida animal predominante, onde o ambiente parece querer feri-los a todo momento.

• No interior da cadeia de montanhas, outro cinturão verde de floresta tropical. Índice de Desvio:
o Flora: ID 3;
o Fauna: ID 9;
o Agressividade: ID 5 Agressivo;
o Potencial Místico Inativo: ID 12;
o Influência Mística Ativa: ID 0-7 Flutuante;
 Fauna com ID 9 relativo a diversidade de animais e bestas místicas, além do trânsito das feras vistas nas montanhas.

• No interior do segundo cinturão uma cidadela composta inteiramente por humanos. Índice de Desvio:
o Flora: ID 3;
o Fauna: ID 8;
o Agressividade: ID 5-2 Pacífico-Agressivo;
o Potencial Místico Inativo: ID 12;
o Influência Mística Ativa: ID 0-8 Flutuante;
 Fauna com ID 8 relativo às criaturas citadas anteriormente que eventualmente são retiradas, ou migram, da floresta interna e das montanhas. A essa altura eu estava feliz de ter encontrado uma sociedade pensante, imaginava que iria me deparar apenas com bestas e criaturas naturalmente magicas.

• No centro da cidadela um buraco negro se abrindo e uma grande torre de pedra flutuando sobre ele com uma escadaria de cristal cantante como acesso. Índice de Desvio:
o Flora: ID 12;
o Fauna: ID 12;
o Agressividade: ID 12 Agressivo;
o Potencial Místico Inativo: ID 12;
o Influência Mística Ativa: ID 12;
 A análise do buraco negro é completamente incomum, ou perfeitamente compatível com todos os exemplares de caos existente, lembrou as antigas lendas e histórias.

• No interior da torre uma enorme biblioteca, possuindo apenas estantes e acervos de livros. Índice de Desvio:
o Flora: ID 0;
o Fauna: ID 0;
o Agressividade: ID 12 Pacífico;
o Potencial Místico Inativo: ID 12;
o Influência Mística Ativa: ID 12;
 Por um instante pensei ter errado as coordenadas de meu local de inspeção e imaginei ter chegado à biblioteca de Orcano, mas esta era inabitada por formas de vida (Desconsiderando consciências de artefatos e objetos).

As características separadas de cada ambiente micro não eram incomuns, comparados a tudo que eu já havia encontrado ou estudado. Entretanto, observando o ambiente macro e suas “divisões naturais”, essas combinações eram extremamente improváveis.

Apesar da combinação incomum, eu não estava animado com o que havia encontrado. Aquilo que poderia ser o mais interessante era inabitado, a biblioteca mágica.

Dirigi-me imediatamente à cidade e me deparei com humanos eruditos e harmoniosos. Estudiosos com capacidades místicas e artesãs bem desenvolvidas. Mas até então nada era novo, muito menos interessante, o marasmo do lugar me entediava.

Inicialmente apenas o que me chamou atenção na cidadela foram as inúmeras estátuas e alguns templos de uma divindade que chamavam de “Goowolf o Deus do Conhecimento” (traduzido do idioma local). As estátuas de pedra cinzenta retratavam um ser humanoide com um manto de capuz, onde não era possível ver seu rosto, chegando a lembrar a face central de Gaedra, se não fosse pelo rosto de Goowolf mirar o céu.

No primeiro contato não demorei muito observando a cidadela e os mortais, me dirigindo rapidamente para o interior da torre. Meus dedos dos pés coçaram para tocar as escadarias e ouvir sua melodia, mas me contive e mantive o protocolo.

No interior da biblioteca mística me dei a liberdade de escolher um livro não consciente, já que esta era inabitada, mas eram ínfimos os livros não encantados, decidi que escolheria o mais rústico e menos mágico e apenas um, para não correr riscos de interferência. Para minha insatisfação o mais indicado era um livro fino, escrito com caligrafia grosseira e com uma redação à margem do aceitável. Este livro trazia o mesmo título deste relato “Goowolf o Deus do Conhecimento, o Fim e o Recomeço”.

Já era tarde e eu estava cansado e agradecia por isso, pois teria que cumprir o protocolo de ficar 7 dias (calendário celeste) observando este vale virgem ainda sem nome. Decidi que leria lentamente o fino livro enquanto os meus dias de obrigação passassem lenta e tediosamente.

Segue transcrição do primeiro dia de leitura:

“Meu nome é Goowolf, ou assim desejo ser chamado, este será meu último escrito e será breve, pois a esta altura já quase não vejo sentido em produzir um escrito.

No decorrer de minha vida, que tornou-se milenar, dediquei-me a obter, estudar e pesquisar todo o tipo de conhecimento. Matemática, medicina, biologia, história, magia, geografia, física, artesanato, psiquismo, psicologia, temporalidade e tudo o mais que possa ser chamado de disciplina prática, teórica ou empírica.

Por fim, ergui-me como uma divindade benevolente entre meus iguais que desejavam obter parte de meu conhecimento. Tornei-me o melhor que eu poderia ser através do estudo e da manipulação de objetos e artifícios, mas foi apenas me vendo como Deus que compreendi que o meu maior poder me havia sido concedido pela natureza. Minha curiosidade e minha capacidade de aprendizado que me faziam tão superior aos demais de minha raça.”

Uma introdução simplória, mas deveras interessante se comparado com o tédio de observar os humanos passarem o dia em seus estudos místicos ou aritméticos “avançados”, como eles mesmo chamavam. Mas era melhor guardar um pouco do livro para quando o marasmo fosse insuportável novamente.

Digno de nota sobre o segundo dia, apenas que uma das criaturas montanhosas caminhou pacificamente pela cidade e foi tratada com respeito e reverência pelos habitantes locais, que se curvavam e ajoelhavam perante a criatura que passava sem se importar com eles. O monstro cruzou a cidade, andando lentamente, e se deitou em um gramado próximo à margem do buraco negro, aparentemente adormecendo. A fera se assemelha com aquelas estátuas antigas que eram colocadas no alto de templos profanos para amedrontar os incautos, possui corpo de gorila, asas de morcego e cabeça de lobo, ou algo assim. Fiz um desenho à moda antiga em um papiro para passar o tempo e o tédio. Segue o rabisco:

Intui que as criaturas fossem guardiãs que Goowolf havia criado para proteger seu povo antes de sua partida, morte ou seja lá o que for que tenha feito.



Dia 2 da 13º inspeção

Durante o segundo dia analisando friamente a cidadela, o buraco negro e a torre, caso a cidadela flutuasse sobre o buraco negro e este fosse rodeado pela cadeia de montanhas, seria uma cópia perfeita de uma Cidadela de Astrath, mas nesta altura julgava impossível que um vale virgem possuísse tamanha influência de lendas ancestrais. Permiti-me viajar em meus pensamento e pensei que esta poderia ser uma futura cidadela de Astrath, caso o temível buraco negro ainda estivesse começando a crescer. Por fim, ri sozinho de meus pensamentos.

A criatura que dormia no gramado ao lado do buraco negro em expansão se levantou de um salto e começou a cheirar o ar como um cão farejador, quase que instantâneo a isso, energias ativas oscilantes entre ID 9 a 12 começaram a emanar do buraco para o ambiente próximo na cidade. Imaginei que a criatura possuísse um faro realmente muito aguçado, pois havia detectado a presença mística antes de meus aparelhos.

Rapidamente o “Gárgula” se pôs em posição de bote e saltou atacando 9 criaturas humanoides que se materializaram saindo do buraco. Os movimentos do guardião foram bem rápidos e as criaturas de coloração arroxeada não tiveram chance de defesa.

Os habitantes locais só perceberam o ataque quando tudo já estava acabado, e apenas se aproximaram e saldaram em agradecimento e comemoração para a criatura que em poucas mordidas engolia os cadáveres das presas abatidas.

Assim que acabou de comer, o gárgula levantou voo e voltou para as montanhas sobrevoando a floresta mística.

Os habitantes se muniram de seus livros, fizeram anotações e uma grande parte foi aos templos para agradecer e mostrar seus escritos para as estátuas de pedra de Goowolf.



Dia 3 da 13º inspeção

Mais um dia observando aquele pacífico, tedioso e lento lugar, decidi que era hora de continuar a leitura do fino e grosseiro livro. Segue relatos:

“Cheguei à conclusão que a natureza é maravilhosa e é ela quem concede as maiores dádivas existentes. As panteras deslocadoras podem teleportar-se instantaneamente sem a necessidade de conjurar feitiços, gatos élficos são naturalmente psíquicos podendo se comunicar com seus pares sem a necessidade de exercícios mentais e unicórnios são imortais perante o tempo e podem se curar simplesmente por existir.

Eu só poderia me considerar um Deus perante minha própria consciência caso eu conseguisse executar com maestria tudo aquilo que a natureza fazia. Dediquei-me desde então a estudar as bestas místicas e suas capacidades sobrenaturais. Posso dizer que me tornei obcecado por isso, analisei os alinhamentos cósmicos, os acasos do destino, as influências externas e internas e todo tipo de sorte. Mas por mais que eu me esforçasse, não conseguia me equiparar à grande mãe natureza em sua obra.”

Me permiti uma pequena gargalhada ao imaginar que o Deus da cidadela cultuasse outra divindade. Para acabar com o tédio de um dia já estava bom, outros quatro dias ainda viriam.



Dia 4 da 13º inspeção

Por volta do meio dia do 4º dia de inspeção outra criatura montanhosa foi até a cidadela farejando o ar e se deitou em um poça sob a chuva, próximo ao buraco negro.

Passei o dia observando a criatura depois de ativar um feitiço de perceber odores e sons, além de monitorar as alterações místicas. Eu queria perceber antes do gárgula quando a próxima criatura saísse do buraco negro. Eu estava tão entediado que estava criando em minha cabeça uma aposta absurda com uma criatura que se quer poderia imaginar que eu existia.

A criatura farejava o ar de tempos em tempos, mas nada de surpreendente ou de esperado aconteceu.

Fiquei ansioso e entediado, e assim o dia passou.



Dia 5 da 13º inspeção

Já havia passado mais de um dia e a criatura se mantinha imóvel embaixo da torrente apenas farejando o ar para cima, dessa vez sem se quer se deitar.

Decidi que não perderia outro dia com apostas estúpidas contra criaturas sem consciência e decidi dar continuidade a leitura do livro, já quase no final do 5º dia. Segue texto:

“Cheguei à conclusão que toda pesquisa, escrita, experimento, ciência e conjuração de magia seriam em vão na tentativa de se equiparar à natureza. Pior que isso, teriam o efeito contrário.

Toda raça que busca conhecimento, seja cientista ou conjuradora, trava uma guerra contra a própria natureza. Remédios matam vírus e bactérias e fornecem a cura imediata, mas não imunizam o corpo. Livros permitiram a progressão do conhecimento por gerações, mas enfraquecem a memória e as capacidade psíquicas natas. Rituais sagrados removem as maldições, mas não permitem que estas sejam usadas de maneira produtiva. A conjuração permite ao homem executar magias apenas recitando palavras mágicas, mas interrompe a evolução mística natural.

Por mais conhecimento e poder que um ser “inteligente” possua, ele nunca será maior que a natureza e sempre estará um passo atrás dos verdadeiro seres superiores deste mundo, as bestas místicas.

Certa vez um filósofo disse que a ignorância era uma bênção. Ele não poderia estar mais certo. A falha de todo ser que busca conhecimento é a pressa e a preguiça, a vontade irrefreável de se tornar superior e de alcançar seus objetivos de forma rápida e fácil o torna frágil.

O conhecimento é uma maldição que foi criada para que o seres tentados por ela se sentissem superiores, mesmo que fosse a mais débil das criaturas. Camelos não precisam de conhecimento para encontrar água. Cães não precisam de conhecimento para prever o perigo. Gatos não precisam de conhecimento para ver o mundo astral. Águias não precisam de conhecimento para voar pelo céu. Formigas não precisam de conhecimento para formar uma sociedade. E assim o é na natureza com toda coisa natural e mística.

O ser que busca conhecimento é um escravo das coisas que possui, sendo assim ele é possuído por suas coisas.

Para superar a natureza só existe uma forma, unir-se a ela, e só se chega a essa conclusão possuindo “consciência sem conhecimento”. Como deus do conhecimento abdico de meu posto, aceitando minha atual situação de ignorância perante o universo e buscando a elevação de minha consciência.

Para aquele que ler este relato e não estiver convencido de sua atual situação na evolução da consciência devido ao seu apelo ao conhecimento, deixarei o último questionamento que pretendo fazer em minha vida:

“Você está controlando sua respiração nesse momento?”

Ao mesmo tempo que li as últimas palavras do livro, escutei trovões explodindo no céu e o clarão de um raio da natureza que descia na direção da cidadela, bem próximo a mim. Vi de relance a besta gargulóide se mover com extrema velocidade, ela saltou e dividiu-se em duas. Uma baforou uma espécie de cúpula de fogo que protegeu os mortais e a mim dos estilhaços e do barulho do trovão. A outra saltou e agarrou o raio com a boca e o partiu em dois, como se ele fosse uma serpente de carne da qual arrancaria a cabeça. Depois disso ele engoliu o raio, como se fosse realmente um animal.

Enquanto as pessoas saldavam e gritavam em comemoração, homenageando as criaturas, estas simplesmente caminharam lentamente na direção das montanhas.

Eu estava assustado e concentrado apenas em respirar, pois aquela última pergunta do livro somado ao susto, fez com que eu precisasse me concentrar para respirar.

Sob toda essa tenção, pude observar uma das criaturas caminhando em minha direção, então ela desviou de mim, me contornou e seguiu seu caminho para as montanhas.

Fiquei extremamente assustado, imaginei por um momento que aquela criatura, que poderia ser uma parte do Deus do vale virgem, estaria me vendo o tempo todo, mas que havia decidido me ignorar.

Já era o início do meus sexto dia, e só consegui pensar em correr dali. Me teleportei instantaneamente para o cinturão da floresta externa, onde não havia sinal de Índice de Desvio da natureza e onde não havia detectado nenhuma criatura da montanha.

Aguardei naquela floresta por quase dois dias, até o fim da minha vigília. Fiquei imaginando sobre o que havia lido e presenciado, ainda incerto se foi minha mente ou se a criatura realmente teria me visto.

Tudo que eu pensava me causava mais medo, em parte por poder ter cometido um desvio grave na conduta de minhas funções, em parte por ter zombado e debochado mentalmente e verbalmente de uma criatura que poderia estar me vendo e ouvindo o tempo todo, e se isso fosse verdade, seria ela mais poderosa do que eu.

Também refleti sobre o que havia lido, me inclinei a concordar, talvez por medo, talvez por realmente acreditar.

A ideia de imaginar que os animais e demais bestas estariam à frente de humanos, elfos, anões e demais raças na cadeia de evolução é perturbadora. Mas aquele escrito pertencia a alguém realmente culto, com capacidade mística de 12º grau que preferiu se tornar uma besta inconsciente. Ele pegou um raio da natureza com a boca e com as patas, provavelmente não se perguntou como faria aquilo, não se preocupou com graus de feitiço, fórmulas, palavras, orações ou inscrições, ele apenas o fez.

Isso fez eu me questionar, seria realmente o Tiamat das lendas uma besta tão estúpida, ou estaria ele desinteressado em se comunicar com criaturas tão retrógadas como nós, seres conscientes?

Ao fim de meus questionamentos trêmulos, parti para a minha inspeção de nº 14. Mas só muito tempo depois percebi que eu estava ainda com o livro tirado da Torre do Conhecimento, como chamei o 13º Vale Virgem.

Sei que este é um erro irreparável de interferência direta, e não sei o que fazer com este livro. Provavelmente ele será depositado nas bibliotecas antigas.

Peço perdão por meu pecado e faço este relato com total sinceridade e verdade.
Inspetor nº 99

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